quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Saúde Pública: entre porcos e cavalos

Correio Popular, Campinas, 13 de agosto de 2009, p. A-3, coluna Opinião

Saúde pública: entre porcos e cavalos

A primeira pandemia de influenza no século XXI, declarada pela OMS (Organização Mundial de Saúde), tem realmente assustado muitas pessoas pelo mundo afora. No Brasil, a desconfiança e a falta de informação generalizam-se.

Poucos dados comparativos em relação aos demais tipos gripes são divulgados, e quando são, o fato repercute pouco. Por exemplo: há duas semanas foi noticiado que no ano de 2008 morreram 17 pessoas por dia em São Paulo de outros tipos de gripe e ninguém se amedrontou! O que nos leva à desconfiança em relação ao pânico criado em torno do vírus influenza A H1N1: o que estará por trás das manchetes da mídia e da histeria global?

Tendo sido detectada inicialmente nos EUA e no México, a chamada gripe suína se espalhou pelo globo, mobilizando autoridades sanitárias e amedrontando grande parte da população mundial. Recorrentemente, ora aqui e outra ali, o medo evolui para o pânico irracional, que é hoje planetário. De modo que se torna indispensável racionalmente tentar entender melhor esses fatos. Senão, vejamos!

Tornou-se senso comum entre nós que o único remédio para a tal gripe é o hoje mundialmente conhecido Tamiflu, cujo princípio ativo é o fosfato de oseltamivir e sua patente pertence a uma indústria farmacêutica, a Roche, a qual, para a sua felicidade e de seus acionistas, não está tendo condições estruturais para atender à imensurável demanda. Tanto que recente comunicado a Roche disse em nota que “A produção de Tamiflu foi aumentada para alcançar um resultado máximo de 36 milhões de kits por mês, equivalente a 400 milhões de kits de tratamento (4 bilhões de cápsulas) por ano.”

Contudo, o que é pouco divulgado é que a empresa que patenteou o tão desejado Tamiflu, em 1996, foi a companhia farmacêutica norte-americana Gilead Sciences. Um ano depois, Donald Rumsfeld, que era integrante da direção da empresa desde 1968, foi nomeado seu presidente, posto ocupado até 2001, quando assumiu a Secretaria de Defesa do Governo Bush. O mesmo governo que em 2005 destinou mais de um bilhão de dólares para a produção de mais 20 milhões de doses de Tamiflu, sob o argumento de defender a saúde do povo americano.

De fato, a saúde pública virou um grande negócio, que foi otimizado com a pandemia causada pelo influenza A H1N1. Para não ficar atrás, o Brasil repete a vergonhosa prática politiqueira de privilegiar as elites com os recursos públicos.

Em época de pandemia, com o número de mortes no país crescendo, soube-se que o evento AOIHS (Athina Onassis International Horse Show) 2009, uma competição que reúne a fina flor da elite mundial, recebeu verba pública. Entre os números divulgados se fala em R$ 9.000.000,00.

Considerando que o SUS teria condições de fazer o exame de sangue de reação em cadeia de polimerase – conhecido como PCR, do inglês, polymerase chain reaction -para detectar o virus H1N1 a um custo aproximado de R$ 20,00, poderíamos utilizar esse dinheiro para fazer simplesmente 450.000 exames, o que permitiria um estudo epidemiológico adequado para nortear as ações públicas para controle da pandemia em nosso país.

Por que não se faz isso? Porque os governantes parecem ter um estranho fetiche por cavalos. Já dizia o presidente João Figueiredo que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Talvez ele apenas seguisse o Imperador Romano Calígula, que nomeou seu cavalo Incitatus como senador. Uma escolha que, diante da situação atual do Senado, poderia até ser considerada sensata. Não admira, portanto, que governos federal, estaduais e municipais prefiram acolher cavalos ao invés de socorrer o povo.

Temos assim, duas injustiças. A injustiça maior, sofrida pelo povo, tanto por governantes que gastam mal recursos que poderiam salvar vidas em favor do divertimento de abastados, como por autoridades públicas que se omitem em fiscalizar e coibir essa festa mórbida. E, reconheçamos, a injustiça menor sofrida pelo porco, que nessa história empresta indevidamente o nome à gripe e tem usurpada, mais uma vez, sua exclusividade em chafurdar no lodo.



Marcos Francisco Martins – filósofo e doutor em Educação

Liris Delma de Lima e Silva Azevedo – médica e mestre em Educação

Um comentário:

Mario Nunes disse...

Estamos assistindo uma confusão enorme nas noticias e na condução dessa gripe no Brasil. No início, procurou-se minimizar ao máximo o impacto da gripe. Divulgou-se amplamente que o taxa de letalidade era baixa, igual a de outras gripes(???), etc e tal. Depois apareceu a taxa de mortalidade, também baixíssima (segundo relatam) no Brasil, fato divulgado com orgulho!!!
Hoje na Voz do Brasil foi dito que o Brasil tem a segunda menor taxa de mortalidade da doença (qual seria o motivo??).
Uma importante revista semanal divulgou há duas semanas que esta gripe era menos ameaçadora que outras pois em 2008, no mesmo período de tempo havia morrido 4.500 pessoas (pasmem!).
Ora, dados do Datasus, tem o ano de 2006, como registro mais recente sobre Mortalidade, e, naquele ano, como nos anteriores o número de mortes, ANUAL, foi de 181 óbitos.
A quem se pretende confundir?
Muito oportuno o artigo acima.